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Novembro 17 2011

 

As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift

 

Antes de começarem a rir e acharem que é um livro para miúdos, leiam isto até ao fim.

Este livro foi escrito em 1726, altura em que o próprio conceito de literatura infantil não existia. O autor, irlandês de nascimento e homem da Igreja pretendeu com este livro fazer uma impiedosa sátira à sociedade do seu tempo. Para isso, utilizou um estratagema muito próximo do que hoje se faz em alguma ficção científica: criou terras inexistentes e dotou-as dos defeitos que via na sua, caricaturando cada coisa até se perceber quão ridícula ela era - por exemplo, o sistema bipartidário inglês está caricaturado à perfeição nas duas facções que exitem na corte de Lilliput e que se distinguem... pelo lado por onde começam a comer os ovos cozidos!

 

Eis aqui um pequeno excerto:

« (...)

Estas duas poderosas potências têm, como ia dizendo, andado empenhadas, durante trinta e seis luas, numa guerra muitíssimo acesa, e motivada pelo seguinte: toda gente concorda em que a maneira primitiva de partir os ovos antes de serem comidos, é bater com eles no rebordo de qualquer prato ou copo; mas o avô de Sua Majestade imperial, em criança, estando para comer um ovo, teve a infelicidade de cortar um dedo, o que deu motivo a que o imperador, seu pai, lavrasse um decreto, em que ordenava aos seus súditos, sob graves penas, que partissem os ovos pela extremidade mais delgada. Este decreto irritou tanto o povo, que consoante narram os nossos cronistas, houve por essa época seis revoltas, em uma das quais um imperador perdeu a coroa. Estas questiúnculas intestinas foram sempre fomentadas pelos soberanos de Blefuscu e, quando as sublevações foram sufocadas, os culpados refugiaram-se neste império. Pelas estatísticas que se fizeram, onze mil homens, em diversas épocas, preferiram morrer a submeter-se ao decreto de partir os ovos pela extremidade mais delgada. Foram escritas e publicadas centenas de volumosos livros acerca deste assunto; mas os livros que defendiam o modo de partir os ovos pela extremidade mais grossa foram proibidos desde logo, e todo o seu partido foi declarado incapaz de exercer qualquer função pública. Durante a ininterrupta série daqueles motins, os imperadores de Blefuscu fizeram freqüentes recriminações por intermédio dos seus embaixadores, acusando-nos de praticar um crime, violando um preceito fundamental do nosso grande profeta Dustrogg, no quinquagésimo quarto capítulo de Blundecral (que é o seu Corão). Isto, porém, foi considerado como uma simples interpretação do sentido do texto, cujos termos eram: que todos os fiéis quebrarão os ovos pela extremidade mais cômoda. Na minha opinião, deve deixar-se à consciência de cada um a resolução de qual seja a extremidade mais cômoda, ou pelo menos, é à autoridade do soberano magistrado que compete resolver. Ora, os partidários da extremidade mais grossa, que se encontravam exilados, viram tanta deferência na corte do imperador de Blefuscu e tanto auxílio e apoio no nosso próprio país, que se seguiu uma guerra sanguinolenta entre os dois impérios, guerra que durou trinta e seis luas, com vário êxito para cada uma das partes. Nesta guerra perdemos quarenta naus de linha e um grande número de navios com trinta mil dos nossos mais valentes marinheiros e soldados; dá-se como certo que a perda sofrida pelo nosso inimigo não foi inferior. Seja como for, o que é fato é que os de Blefuscu preparam agora uma temível esquadra, para operar um desembarque nas costas do nosso império. Ora, Sua Majestade imperial, tendo a máxima confiança na vossa coragem, e tendo em altíssimo apreço a vossa força, pediu-me que vos pormenorizasse todos estes assuntos, a fim de saber quais as vossas disposições a respeito de semelhante assunto.(...)»

 

 

De resto, a viagem a Lilliput é apenas a primeira de uma longa série de viagens, cada uma mais esclarecedora do que a anterior.

 

Há várias adaptações desta obra ao cinema. Recomendo uma, que além de ser muito fiel à obra completa, tem o atractivo acrescido para nós de ter sido filmada, em parte, em Lisboa. 

 

Aqui fica uma amostra:

 

 

Quem estiver a pensar em apresentar o livro na aula - o que é uma boa ideia - aqui ficam links úteis:

 

http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/gulliver.html - a obra integral (em português do Brasil)

 

http://www.recantodasletras.com.br/artigos/2090025 - uma boa análise (em português do Brasil)

 

http://www.ufsj.edu.br/portal-repositorio/File/revistalapip/machado_viana_artigo.doc - magnífico trabalho universitário, com dados sobre o autor e a obra (em português do Brasil)

 

http://colunistas.ig.com.br/livros/tag/viagens-de-gulliver/ - boa análise, talvez demasiado concisa, mas bem escrita

 

http://web03.unicentro.br/pet/pdf/09_kelly.pdf - mais um trabalho universitário (em português do Brasil) encarando precisamente a questão da sátira social e política

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/As_Viagens_de_Gulliver - artigo da wikipedia sobre o livro

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Jonathan_Swift - artigo da wikipedia sobre o autor


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