
No próximo dia 27 de Janeiro, 4ª feira, pelas 17 horas, realizar-se-á no CRE uma «Hora da Leitura» sob o tema INVERNO. O texto a ler será «O Jantar do Bispo» , um dos Contos Exemplares de Sophia de Mello Breyner Andresen.
Como o conto é bastante extenso, vai dividido em três capítulos - tal como foi escrito, aliás.
Sophia de Mello Andresen
Contos exemplares
Porto, Figueirinhas, 1997
I
A casa era grande, branca e antiga. Em sua frente havia um pátio quadrado. À direita um laranjal onde noite e dia corria uma fonte. À esquerda era o jardim de buxo, húmido e sombrio, com suas camélias e seus bancos de azulejo.
A meio da fachada descia uma escada de granito coberta de musgo. Em frente dessa escada, do outro lado do pátio, ficava o grande portão que dava para a estrada.
A parte de trás de casa era virada ao poente e das suas janelas debruçadas sobre pomares e campos via-se o rio que atravessa a várzea verde e viam-se ao longe os montes azulados cujos cimos, em certas tardes, ficavam roxos.
Nas vertentes cavadas em socalco crescia a vinha. Era ali a terra pobre donde nasce o bom vinho. Quanto mais pobre é a terra, mais rico é o vinho. O vinho onde, como num poema, ficam guardados o sabor das flores e da terra, o gelo do Inverno, a doçura da Primavera e o fogo dos Estios. E dizia-se que o vinho daquelas encostas, como um bom poema, nunca envelhecia. À direita, entre a várzea e os montes, crescia a mata, a mata carregada de murmúrios e perfumes e que os Outonos tornavam doirada.
Mas agora era Inverno, um duro Inverno desolado e frio, e o vento desfazia o fumo azul que subia das pequenas casas pobres. Os caminhos estavam cobertos de lama. Um longo soluço parecia correr pelas estradas.
O Dono da Casa estava de pé, encostado à lareira acesa na sala grande, rodeado de convidados, que eram primos, primas e alguns vizinhos. Estava calado, alheio à conversa: meditava, pesava as suas razões, defendia em frente de si próprio a sua causa e a sua justiça. Faltava o último convidado, que era o Bispo.
O Dono da Casa tinha um pedido a fazer ao Bispo. Fora mesmo por isso que o convidara para jantar. E era por isso que, enquanto o esperava, ele meditava e preparava os argumentos da sua razão.
De facto, ali, naquelas terras de sossego, naqueles domínios submissos onde ele e seu pai e seus avós tinham exercido uma autoridade indiscutida, ali onde antes sempre reinara a ordem, tinha surgido agora uma semente de guerra.
Esta semente de guerra era o padre novo, um jovem padre de sotaina rota e cabelo ao vento, pároco de Varzim, pequena aldeia miserável onde moravam os cavadores da vinha. Havia muito tempo que Varzim era pobre e sempre cada vez mais pobre, e havia muito tempo que os párocos de Varzim aceitavam com paciência, sempre com mais paciência, a pobreza dos seus paroquianos. Mas este novo padre falava duma justiça que não era a justiça do Dono da Casa. E parecia ao Dono da Casa que, dia após dia, semana após semana, mês após mês, a sua presença ia crescendo como uma acusação que o acusava, como um dedo que apontava, como uma espada de fogo que o tocava. E ali na sua casa cujos donos tinham sido de geração em geração símbolo de honra, virtude, ordem e justiça, parecia-lhe agora que cada gesto do Padre de Varzim o chamava a julgamento para responder pelos tuberculosos cuspindo sangue, pelos velhos sem sustento, pelas crianças raquíticas, pelos loucos, os cegos e os coxos pedindo esmola nas estradas.
Finalmente surgira uma questão de contas com um caseiro e o Abade de Varzim tomara a defesa do caseiro.
— Padre — dissera o Dono da Casa —, eu pensava que o seu ofício era ocupar-se de rezas e não de contas. Os problemas morais pertencem-lhe. Os problemas práticos são comigo. Peço-lhe que deixe César ocupar-se do que é de César. Eu na sua igreja não mando: só assisto e apoio. O problema que estamos a discutir é meu, é do mundo, é um problema material e prático.
— Da nossa própria fome — respondeu o Padre de Varzim — podemos dizer que é um problema material e prático. A fome dos outros é um problema moral.
E a questão continuou. Crescia de dia para dia. O Dono da Casa estava velho e habituado a mandar e a possuir. As suas conveniências, as suas comodidades, as suas vantagens e os seus interesses pareciam-lhe direitos éticos absolutos, princípios sagrados da paz e da ordem. Por isso convidara o Bispo para jantar. Para lhe expor as suas razões e a sua justiça. Mas era-lhe difícil acusar o seu adversário. O Padre de Varzim vivia pobremente e castamente. Ninguém podia dizer que ele não era um bom padre. A sua piedade era visível e a fama da sua caridade corria de boca em boca pelos socalcos da serra. Ele sentava à mesa o tuberculoso com seus farrapos sujos de sangue e entrava no lar do leproso. Ele dava, dizia-se, tudo quanto tinha e recebia em sua casa os vagabundos. De dia para dia a sua cara esculpida pelo duro sacrifício quotidiano, o seu olhar atravessado pela visão do sofrimento, os seus ombros estreitos, a sua roupa desbotada por sóis e por chuvas, as suas botas rotas em todos os caminhos, como que se iam tornando a imagem da pobreza e da miséria de Varzim.
De certa forma, o Dono da Casa sentia-se vexado pela insignificância daquele adversário. Não estava habituado a lutar, estava só habituado a mandar. Outros por ele tinham lutado e vencido. Mas, uma vez que tinha que lutar ele próprio, gostaria ao menos de lutar com um homem forte e poderoso como ele. Adversário tão magro e desarmado fazia-lhe vergonha.
Primeiro interpretara a atitude do Abade de Varzim como sendo a expressão da revolta social dum filho de gente pobre.
Mas depois apurou que o padre era parente afastado duns seus parentes afastados e que a fome escrita na sua cara não era hereditária, mas sim voluntária. Ele rejeitara o seu lugar entre os ricos e tomara o seu lugar entre os pobres. Estas notícias não entusiasmavam o Dono da Casa.
Porque ele costumava dizer: «Todo o poder vem de Deus». E pensava que um padre devia por isso respeitar todo o poder estabelecido e respeitar o dinheiro e a importância social, expressões do poder. E considerava também inadmissível que um homem rejeitasse a herança dos seus para alinhar ao lado dos miseráveis. Um homem de boas famílias se vai para padre deve ser Bispo, Núncio ou até Papa. Mas pelo menos Monsenhor. Nunca pároco de aldeia numa serra.
A atitude do padre novo chocava-o como uma traição.
Acrescia a tudo isto que o Dono da Casa, bom gourmet, sábio em vinhos e bom viveur, detestava os ascetas, que lhe pareciam gente louca, pretensiosa e perigosa, gente pouco humana e querendo sempre o que não é natural. Ora ele teve notícia de que os frangos, as nozes, as uvas e as peras que era seu costume mandar aos sucessivos abades de Varzim em datas regulares, agora, em vez de seguirem o seu destino, que era a mesa do abade, eram distribuídos pela negra fome de Varzim. Soube também que o padre dava as couves da sua horta e as uvas da sua parreira. Dava mesmo o leite da sua cabra. Dava tudo. Por isso andava também ele como um faminto, com a sotaina gasta e as botas vergonhosas.
Isto desafiava o uso, o costume. Já nem era virtude: era desordem, anormalidade, bolchevismo.
Mas o pior de tudo era a missa de domingo. Sempre o Dono da Casa ouvira distraído em Varzim os sermões de domingo. Eram sermões que falavam de paciência, resignação e esperança num mundo melhor. Sermões que não lhe diziam respeito. De certa forma, para ele nenhum mundo podia ser melhor, e desejava por isso ir para o Céu o mais tarde possível. De maneira que, enquanto os pregadores falavam, tudo o distraía. Distraía-o a pintura do tecto, distraía-o a criança que chorava. Daí passava para a lembrança do sulfato ou da vindima ou da venda do vinho. Pensava nos seus negócios.
Mas agora já não se podia distrair. Agora o padre novo falava da caridade. E a caridade de que ele falava não era a conhecida e pacífica praxe das comedidas esmolas regulamentares. Era um mandamento de Deus solene e rigoroso, uma palavra nua de Deus atravessando o espírito do homem.
Tudo isto perturbava e incomodava o Dono da Casa. À volta da missa almoçava mal. A teologia não era a sua especialidade e este mandamento novo da caridade parecia-lhe o resultado das ideias novas e perigosas da nossa época. Ele tinha uma fé firme e sem dúvidas, baseada não nos Evangelhos, que nunca lera, mas sim na sua boa educação e no seu respeito pelas coisas estabelecidas. Dava esmola aos pobres ao sábado e ia à missa ao domingo. Tinha um banco especial na igreja e nunca chegava atrasado. E mantinha em sua casa o hábito antigo de ter sempre na sua cozinha a mesa dos pobres. A qualquer hora do dia naquela mesa era servida uma refeição a qualquer mendigo que batesse à porta. É claro que para usufruir desta benesse era preciso que o mendigo fosse doutras terras ou que, sendo do sítio, fosse reconhecido como um verdadeiro pobre. Verdadeiros pobres, na terra, eram o Lúcio, que não tinha pernas, o Manuel, que não tinha braços, o Quintino que era cego, a Joana Surda que era viúva e centenária e a Maria Louca. Estes eram verdadeiros pobres: de todo em todo não podiam trabalhar. Mas o Pedro da Serra que tinha nove filhos e ganhava quinze mil réis por dia a cavar pedregulhos, esse não era um verdadeiro pobre pois tinha um salário e dois braços.
A mesa dos pobres era uma mesa especial. Por razões de hierarquia e por razões de higiene: não se podia impor aos criados o contacto com a lama, a poeira, a sujidade, o mau cheiro e as doenças dos pobres. Assim, na ordenação daquele pequeno mundo do qual o Dono da Casa era a cabeça, os miseráveis também tinham o seu lugar, que ficava um pouco abaixo dos criados, um pouco acima dos cães. Mas apesar de tudo era um bom lugar. Ao lado do pão e do vinho, em frente do prato da sopa, a cozinheira tinha ordem de pôr sempre uma moeda.
Desta forma se mantinham as tradições daquela casa. Daquela casa tão bela, com as suas linhas limpas, com os seus materiais nobres e pobres, com as paredes caiadas, os azulejos e a grande fachada clara e direita cuja beleza estava só no equilíbrio certo dos espaços e dos volumes e na nudez da cal e da pedra.
Mas dentro já qualquer coisa rompia a harmonia. Móveis pomposos, falsos e doirados, tinham sido acrescentados às antigas mobílias escuras. Um estranho novo-riquismo invadia devagar a antiga, simples e austera nobreza. Um excesso de tapetes escondia a doce madeira do chão. Cortinas complicadas injuriavam o brilho frio do azulejo e a casta cal das paredes.
E sobretudo — ai!, sobretudo — os retratos do Dono e da Dona da Casa, rosados e estilizados, sentados num cadeirão torcido, ao lado dum jarrão da China, contrastavam amargamente com os retratos secos e sombrios dos antepassados. Mas o Dono da Casa não dava por este contraste e gostava de se ver, rosado como um fiambre e com as mãos afiladas até à maravilha, ao lado dos seus avós. Ali estavam quase todos: Aquele que fora ferido em cinco batalhas, aquele que navegara até ao fim do mundo e morrera de escorbuto, o que naufragara no Índico, o que fora denunciado e torturado, o que morrera preso, o que morrera no exílio. Ali estavam quase todos: aquele que perdera um olho em Ceuta, aquele que perdera um braço em Diu, aquele que perdera a cabeça degolado pelos Filipes. Ali estavam quase todos em seus sombrios retratos, ao lado do Dono da Casa que nunca perdera nada.
E quando o Dono da Casa passava com as visitas em frente dos retratos explicava:
— É costume na minha família cada nova geração deixar aqui o seu retrato. Por isso já aqui está o meu. Gosto de continuar as tradições.
Estas exibições dos retratos divertiam profundamente um parente afastado do Dono da Casa que toda a gente na família tratava por primo Pedro.
Este primo Pedro era o mais legítimo representante da nobreza da província e o mais arruinado. Seu avô, seu pai e ele próprio tinham vendido lentamente casas, campos e quintas ao avô e ao pai do Dono da Casa. E também os quadros ali expostos tinham mudado de proprietário juntamente com as casas e com as quintas. Os quadros, porém, além de mudarem de proprietário, tinham mudado também de descendência.
Mas o primo Pedro não precisava de retratos: ele próprio com seu ar austero e seco era igual a um retrato. Formava nisto grande contraste com o Dono da Casa, que era moreno, encorpado e corado, com grossas mãos e dedos ávidos e curtos.
A ruína dos homens como o primo Pedro, seu pai e seu avô parece sempre um pouco inexplicável. Eles não desperdiçam só os seus bens mas também os seus dons. As suas qualidades não encontram forma de realização. É como se a relação entre eles e a vida estivesse quebrada. Em que tinham ocupado os seus dias, o seu espírito, a sua coragem? Que renúncia os conduzia? Que desencontro os dominava?
O primo Pedro tinha a sensibilidade certa como a sensibilidade dum artista, tinha a inteligência dum inventor e o espírito de justiça dum revolucionário. Mas em toda a sua vida nada fizera. Seria por culpa dele ou seria por culpa do círculo que o rodeava? Seria porque a imagem do Dono da Casa, as imagens dos numerosos donos das casas, o faziam recuar com náusea em frente de todas as vitórias? Ou seria ele um espírito tecido de desilusão, descrença e ironia? Ou seria que a sua rejeição significava uma vontade de despojamento, uma renúncia quase metafísica?
O Dono da Casa não se preocupava com estes problemas, que aliás não lhe diziam respeito: para ele, aqueles seus parentes eram apenas falhados decorativos, simpáticos e bem-educados. Tinha muito maior consideração por si próprio e pelos seus, gente capaz de conservar e aumentar a sua fortuna e a sua posição.
De facto o avô do Dono da Casa casara com a filha dum negreiro e o seu pai com a filha dum agiota. Daí viera um grande acréscimo da riqueza da família, riqueza que agora permitia ao Dono da Casa manter estreitas relações com financeiros dominantes e fazer parte de vários conselhos de administração. Enquanto isto se passava, o avô do primo Pedro tinha casado, escandalizando a província, com uma actriz da época romântica e o seu pai casara com uma parente tão arruinada como ele. Quanto ao primo Pedro, nem tinha casado. Alto e magro, caminhava sozinho entre paisagens e penumbras.
Mas apesar de tudo isto o Dono da Casa fazia grande gosto nesse parentesco que provava a sua boa genealogia. Ter o primo Pedro a jantar dava-lhe sempre a sensação de ter um dos personagens da galeria dos retratos sentado à sua mesa.
Porém hoje não o convidara. Pois o primo Pedro tinha opiniões subversivas: defendia a democracia, a liberdade de imprensa, o direito à greve e costumava citar o catecismo dizendo que não pagar o justo salário a quem trabalha é um pecado que brada aos céus. Isto levava o Dono da Casa a suspeitar que ele fosse comunista. E também o levava a compreender que não convinha convidá-lo para o jantar do Bispo: de facto era evidente que o primo Pedro tomaria a defesa do Padre de Varzim.
Ora o Dono da Casa, com o seu sentido prático, tão perfeito que era quase sinistro, combinara aquela reunião com toda a prudência: só tinha convidado gente discreta e segura, com cujo apoio, concordância e silêncio podia contar inteiramente.
Agora já passava das oito horas: a chuva batia musical nos vidros, mas dentro da sala reinavam a luz e o calor.
E de pé entre os seus convidados inócuos, alheio às conversas, encostado à pedra da lareira, onde ardia devagar a cepa torcida da vinha, o Dono da Casa pensava na finalidade daquele jantar: pedir ao Bispo que mudasse o Padre de Varzim para outra freguesia. Calculava as palavras e media as razões. Não queria que o seu pedido parecesse mesquinho ou vingativo.
Queria explicar claramente que o padre novo era um perigo para a ordem social, aquela ordem que ele, dono dos campos, dos pomares, dos pinhais e das vinhas, no centro do jardim bem podado, bem plantado e bem varrido, no centro da casa antiga bem tratada, bem caiada e bem encerada, no centro das pratas herdadas e das pratas compradas, no centro dos móveis velhos e dos tapetes novos, representava.
Mas — apesar de tão poderosas razões — o pedido era difícil de fazer.
Entretanto, no seu carro, o Bispo vinha a caminho. Os faróis iluminavam serras, bermas, matas, casebres e, de longe a longe, portões de quintas.
No céu encoberto por grossas nuvens de chuva não se via uma única estrela. Era uma noite totalmente escura. Na lama da estrada o carro às vezes derrapava.
O vento desordenado sacudia os ramos das árvores e os pensamentos cruzavam-se na cabeça do Bispo.
Pedir é uma coisa difícil. E tanto mais difícil quanto mais aquele a quem se pede é rico e poderoso. Mas a quem havia ele de pedir senão aos ricos e poderosos?
De facto, o Bispo tinha um pedido a fazer ao Dono da Casa. Fora mesmo por isso que aceitara aquele convite.
O tecto da mais bela igreja da sua diocese tombava em ruínas. Era uma igreja do séc. XVII, célebre em toda a província, e que fora mandada construir justamente por um antepassado do Dono da Casa. Pois nos tempos antigos, quando um homem poderoso se achava doente ou tinha a consciência pesada, fazia a promessa de mandar construir uma igreja para dar paz ao corpo e à alma. Mas agora há remédios para todas as doenças e argumentos para todas as consciências. Agora os «ricos homens» já não mandam erguer igrejas em honra de Nossa Senhora da Esperança. Agora a doença já não é igual para pobres e ricos. Agora com regime, análises, radiografias, clínicas, curas de sono e vitaminas, um homem rico tem a saúde quase assegurada. E agora as certezas burguesas varreram a inquietação e tornaram inútil a esperança.
Por isso o Bispo organizara em vão uma lista entre as personalidades eminentes da cidade. A piedade dos fiéis não chegava ao tecto. O produto do peditório mal dera para restaurar o altar-mor. E a Igreja da Esperança continuava em ruínas.
Fora assim que o Bispo se resolvera a dirigir-se ao Dono da Casa para lhe pedir os cem contos que faltavam para arranjar o tecto. Mas era duro para ele ter de pedir tanto dinheiro. É verdade que o Dono da Casa era um homem virtuoso. Mas quem pode confiar na generosidade dum homem virtuoso? Os homens virtuosos são sensatos e prudentes, e a generosidade, sendo a virtude daqueles que dão aquilo que lhes faz falta, é em si mesma uma coisa insensata, contrária aos hábitos dos homens prudentes. Generosos são só os loucos ou os santos. Por isso o Bispo, enquanto a noite corria a seu lado, abanou lentamente a cabeça duvidando da eficácia do seu pedido.
Lembrou-se porém que o Dono da Casa, sendo, como os antigos fariseus, um homem oficialmente virtuoso, deveria também ser um homem vaidoso. Pois a sua longa experiência lhe ensinara que os homens virtuosos são geralmente vaidosos em extremo. Cultivam com cuidado a sua boa fama, que querem esplêndida e conhecida. E sem dúvida o Dono da Casa, tão cioso das tradições da sua família, não seria indiferente ao facto da Igreja da Esperança — agora em ruínas — ter sido três séculos atrás construída por um antepassado seu. Talvez a vaidade do Dono da Casa valesse ao tecto da igreja.
O Bispo estava velho e cansado do mundo. E enquanto os faróis iluminavam ao longo das curvas da serra pensou:
— É triste estar a confiar na vaidade dos homens. E apeteceu-lhe de repente não fazer o pedido.
Mas o Diabo que espreita a ocasião resolveu intervir.
Daí a instantes o Bispo chegava à casa. O automóvel atravessou o portão e os faróis iluminaram de frente a bela escada de granito. O carro deu meia volta e a luz dos faróis correu ao longo da fachada branca, esculpindo o desenho das janelas.
E mais uma vez o coração do Bispo se comoveu em frente da beleza pura e antiga das paredes e das pedras.
Chovia. Um criado desceu com um guarda-chuva. O Bispo apeou-se e, lentamente, pesadamente, apoiando as mãos no corrimão de granito coberto de musgo, subiu a escada e penetrou no interior quente e iluminado.
O Dono e a Dona da Casa já o esperavam na grande entrada vazia, onde os azulejos azuis contavam, com muitos detalhes realistas, histórias de idílicas caçadas irreais, com caçadores e veados, arvoredos e aves. Depois da saudação da praxe, dirigiram-se os três para a sala. Interromperam-se as conversas e levantaram-se os convidados para virem falar ao Bispo.
Mas mal terminaram os cumprimentos, ouviu-se um grande estrondo lá fora.
Houve então um pequeno momento de confusão. Correram pessoas para as janelas e viram no pátio iluminado um grande automóvel preto e sumptuoso esbarrado contra o pilar esquerdo do portão.
Isto causou grande sensação. Houve exclamações e perguntas. Todos eram de opinião de que o carro devia ter derrapado na lama e todos diziam:
— É preciso ver se há alguém ferido.
Mas abriu-se a porta da frente do carro e por ela saiu um chauffeur que abriu a porta de trás.
E pela porta de trás saiu um homem alto e direito, com um sobretudo escuro, chapéu de abas reviradas e cara de pessoa importante.
Chovia cada vez mais, mas o homem, sem pressa e sem demora, olhou em sua frente e atravessou o pátio pausadamente, como se a chuva não o molhasse.
Mas já o criado do guarda-chuva descia a escada a correr e já o Dono da Casa se precipitava para a entrada.
E o seu braço, mal o vulto do desconhecido se desenhou no lumiar da porta, fez um largo gesto de acolhimento.
O desconhecido disse o seu nome. Um nome que foi ouvido com prazer. Era o nome dum homem importantíssimo.
— O meu carro derrapou na estrada — disse o Homem Importantíssimo — e esbarrou contra o seu portão.
O Dono da Casa deu imediatamente ordens para remediar o desastre. Mandou entrar o carro para dentro do pátio e mandou que telefonassem para uma garagem da cidade próxima para que viesse de lá um mecânico para reparar a avaria. Mas a cidade ficava a mais de meia hora de distância. E por isso o Homem Importantíssimo foi convidado para jantar.
O novo convidado agradou logo a toda a gente. Era um homem moreno, alto, mais depressa magro do que gordo. Tinha a idade indefinível dos homens de negócios que estão no auge da sua carreira. Não era velho, mas parecia nunca ter sido novo.
— É muito simpático — murmurou a prima Ana à prima Mariana.
— Muito — respondeu a prima Mariana.
Só o filho do Dono da Casa não gostava do novo convidado. Ele reparara que a sombra daquele homem era enorme e enchia os tectos, gesticulando como um grande polvo. Mas isso era uma coisa que só a criança vira.
E, quando o Homem Importantíssimo lhe perguntou como se chamava, ele respondeu sério:
— Chamo-me João. E depois perguntou:
— Por que é que a sua sombra é tão grande?
O convidado não respondeu à pergunta da criança. Riu e perguntou:
— Quantos anos tens?
— Nove.
— Ainda és muito novo.
João tornou a olhar no tecto a sombra desmedida. Depois encarou de novo o homem e disse:
— Não gosto de si.
O convidado riu mais uma vez e tornou:
— Ainda és muito novo. Quando cresceres talvez sejas meu amigo.
A presença do Homem Importantíssimo deu ao jantar uma grande animação. Ele era o centro das atenções e da conversa e as suas opiniões sensatas produziam o melhor efeito. E quando, já no fim do jantar, a conversa se concentrou nos problemas deste tempo, todos o ouviram suspensos.
— Este tempo — disse o Homem Importante — é um tempo de crise: estamos dominados pelo materialismo. Até nos campos, onde só devia reinar a espiritualidade, ouvimos constantemente falar de problemas materiais. Shakespeare, Camões, Dante falaram dos problemas da alma humana. Hoje os poetas discutem os salários dos operários e o nível de vida dos países. Ora o homem não é só matéria: é espírito também. Mas o nosso tempo só vê os problemas materiais. É um tempo de revolta. Os homens não querem aceitar. Paciência e resignação são palavras que perderam o sentido. O homem deste tempo quer que o reino de Deus seja deste mundo. É o pecado da revolta. Ora é grave que este espírito esteja presente na arte, na literatura, na ciência, na filosofia e nos jornais. Mas o mais grave de tudo, aquilo que verdadeiramente é motivo de escândalo, é vermos que o espírito de materialismo e de revolta se infiltra não só entre os católicos, mas até entre os próprios padres.
— A Igreja — atalhou o Bispo — não pode desinteressar-se do problema social.
— De acordo, de acordo — continuou o Homem Importante. — Eu conheço bem a doutrina da Igreja. A Igreja está no mundo e não pode desinteressar-se do mundo. Mas a missão da Igreja é transcendente: compete-lhe guiar o homem para o seu destino eterno. «Dai a César o que é de César e dai a Deus o que é de Deus» — estas foram as palavras de Cristo num país ocupado. Não compete à Igreja empenhar-se na solução dos problemas materiais, solução aliás sempre imperfeita, transitória e duvidosa.
— O mandamento da caridade é muito claro — disse o Bispo.
— Mas pode ser interpretado de muitas maneiras — continuou o Homem Importante. — E creio que muitos hoje em dia o interpretam mal: a caridade que conhecem é só material. Dir-se-ia que o homem vive só de pão. Veja o que se passou com os padres operários. Mas, mesmo sem irmos tão longe, já vemos entre nós cristãos e até padres que falam como comunistas.
— Isso é verdade! — atalhou o Dono da Casa, que se lembrava do Abade de Varzim e exultava com o rumo que a conversa ia seguindo.
Mas já o Homem Importante continuava o seu discurso:
— Este tempo só põe a sua esperança na solução dos problemas materiais. Triste esperança. Vi hoje um espectáculo que me encheu de melancolia. Um espectáculo simbólico. Passei perto duma igreja, que se chama Igreja de Nossa Senhora da Esperança. É uma bela obra do séc. XVII. Mas está em ruínas. Os católicos de agora discutem os problemas da habitação mas deixam cair em ruínas a casa de Deus. Isto, Senhor Bispo, vi eu hoje na sua diocese.
O Bispo corou como um culpado e respondeu:
— É verdade, é verdade. A Igreja da Esperança está em ruínas. Acredite que é uma das minhas grandes preocupações. Preciso de arranjar um remédio. Mas para isso terei de contar com a ajuda daqueles que realmente me podem ajudar.
— De facto, de facto — disse o Homem Importante. — Devemos a todo o custo conservar a herança do passado. A desordem reina no Mundo. Mas aqui, no nosso país, a ordem consegue ainda vencer a desordem.
— Isso é verdade! — disse a prima Conceição.
A prima Conceição estava sentada ao lado do Homem Importante.
Estava maravilhada. O seu coração acolhia com entusiasmo cada palavra que ele dizia. Ela tinha sessenta anos, era viúva e a maior proprietária da região. A sua piedade tinha um carácter combativo, mas o seu verdadeiro Evangelho era o Diário de Notícias. Não tinha filhos e era a organizadora oficial das festas de caridade. O seu nome vinha à cabeça das listas de todas as comissões de beneficência. E era a presidente da obra dos tricots. Uma vez por semana as benfeitoras dessa obra reuniam-se em casa da prima Conceição, e, enquanto falavam do próximo e faziam tricots para os pobres, a tarde corria-lhes leve, apenas interrompida por um chá tão abundante que teria chegado para alimentar durante uma semana os nove filhos esfaimados do Pedro da Serra.
A prima Conceição começou a explicar ao Homem Importante o que era a obra transcendente dos tricots. O Homem Importante aprovava. A conversa era amena.
O Dono da Casa sentia-se feliz. O discurso do novo convidado viera ao seu encontro.
As palavras que ele dissera eram exactamente as palavras que ele precisava de ouvir naquele momento; agora já não sentia hesitações, nem dúvidas, nem escrúpulos. Agora a sua decisão estava tomada: pediria ao Bispo no fim do jantar que mudasse para outra freguesia o Abade de Varzim.
E, contente, com a alma em paz, com a mente liberta de incertezas, ele olhou feliz em sua roda.
A cepa da vinha ardia no fogão, a luz eléctrica presa às molduras iluminava as perdizes, as uvas e os limões das naturezas mortas, as velas brilhavam na mesa e a penumbra enrolava-se nos cantos altos do tecto. O Dono da Casa gostava de estar à mesa com visitas. Nada lhe agradava mais do que dar de comer a quem não tem fome. Sentia-se reinar sobre as loiças e sobre os convidados. E nunca se sentira tão feliz como naquele dia. Sólido era o peso dos talheres de prata. Sólido era o seu reino. O Abade de Varzim era uma pobre sombra, um fantasma perdido entre pedintes e fragas, irreal e abstracto como uma ideia que não é deste mundo.
O jantar estava a chegar ao fim. A conversa agora era geral e subira meio-tom. Os criados davam muitas voltas à mesa.
Um pouco entontecido com a rapidez das palavras, o Bispo olhou a penumbra do tecto. Depois, baixou o olhar e viu em sua frente o pão e o vinho pousados sobre a mesa.
A seguir ao jantar, o Dono da Casa conduziu o Bispo e o Homem Importante para uma pequena sala, onde se sentaram os três e tomaram café.
O Homem Importante falou novamente na Igreja de Nossa Senhora da Esperança. O Bispo contou que a igreja tinha sido construída por um antepassado do Dono da Casa e expôs o problema do tecto. O Homem Importante ofereceu imediatamente cinquenta contos, e o Dono da Casa ofereceu os outros cinquenta contos. Depois o Dono da Casa expôs ao Bispo o problema do Padre de Varzim. O Homem Importante apoiou as razões do Dono da Casa. O Bispo concordou que a atitude do padre novo na questão do caseiro fora uma atitude imprudente. O Dono da Casa continuou a acusação e o Homem Importante continuou a argumentação. O Bispo prometeu que mudaria o pároco da aldeia para outro lugar.
O Dono da Casa entregou um cheque e o Homem Importante entregou outro cheque.
O Abade de Varzim tinha sido vendido por um tecto.
Ninguém falou em troca nem em venda. Ninguém disse palavras chocantes. Mas quando se levantaram os três e se dirigiram para junto dos outros convidados para a sala grande, o espírito do Bispo estava pesado de confusão. Ele era como um homem que, envolvido num negócio que não entende bem e convencido por um hábil advogado, compra o que não quer comprar e vende o que não quer vender.
E Deus no Céu teve dó daquele Bispo porque ele estava só e perdido e não sabia lutar contra os hábeis discursos dos donos do Mundo.
