Casa na duna, de Carlos de Oliveira
«O romance Casa na Duna, publicado em 1943 e republicado em versão reescrita em 1980, é o mais recente volume da colecção que revisita Carlos de Oliveira (1921-1981). Não estando no mesmo patamar de excelência de Uma Abelha na Chuva e Finisterra, Casa na Duna é mesmo assim um belíssimo romance político, uma tragédia campesina entre fomes e temporais.
Mariano Paulo é o proprietário da quinta de Corrocovo. A quinta encima uma duna, que encima uma povoação situada nas margens de uma lagoa. O casarão, escuro e triste, está frequentemente mergulhado em chuvadas e humidade. O romance abre assim "Na gândara, há aldeolas ermas, esquecidas entre pinhais, no fim do mundo. Nelas vivem homens semeando e colhendo, quando o estio poupa as espigas e o inverno não desaba em chuva e lama. Porque então são ramagens torcidas, barrancos, solidão, naquelas terras pobres" (pág. 7). E, mais à frente: "A lagoa crescera um metro sobre o bunho e invadia, às golfadas, os casebres de Corrocovo. Corrocovo era isto: tocas sem lume, devassadas pelo temporal; crianças quase mortas de frio; os campos alagados; o céu tão baixo que parecia poisar na rama dos pinheiros; chuva insistente, noite e dia" (pág. 19).
Este ambiente meteorológico e mineral é sempre importantíssimo em Carlos de Oliveira, mesmo porque acentua o aspecto humano. Que é, neste caso, a difícil sobrevivência económica que persegue Mariano. A quinta depende da sorte agrícola, mas a terra tem sido madrasta. Mariano, atávico e poupado, não quer mecanizar a lavoura. E, como recurso em tempo de apuros, lança-se em vários negócios (cal, argila) que lhe possam tirar a corda da garganta. Negócios sempre fracassados que o deixam quase louco, obcecado com a ideia de que existe uma maldição, um destino funesto que espera as famílias possidentes. Na sua luta desesperada, Mariano não conta com o filho, Hilário, um tipo adoentado, ensimesmado, conflituoso, totalmente desinteressado da sorte da quinta de Corrocovo. Hilário é, como se diz a certo passo, uma amargo que se tornou selvagem e que imprime alguns excessos quase atrozes à narrativa.
Uma narrativa decididamente sombria. Mergulhados na miséria (os jornaleiros) e na melancolia (os fidalgos), homens e mulheres vivem presos em arcaísmos de hierarquia, crendice medieval, e numa sexualidade sem afectos. São quase todos brutais como bichos, mesmo quando discutem em diálogos secos e contidos. São pessoas presas no passado Hilário com a memória da mãe, morta mas sempre presente num retrato oval; o pai com a obrigação de manter a tudo o custo as terras que herdou dos seus antepassados. (...)»
(Parágrafos iniciais de uma magnífica crónica de Pedro Mexia no Diário de Notícias - http://www.dn.pt/inicio/interior.aspx?co
Carlos de Oliveira é um dos maiores vultos do neo realismo literário português. A sua obra merece ser revisitada pelos mais jovens, até porque lhes mostra uma realidade que eles nunca conheceram e que tendem a olhar como se fosse um planeta distante. Recomendo a leitura aos alunos do secundário, e é um bom livro para contrato de leitura. Paraquem pense apresentá-lo em aula, aqui ficam links úteis, além do artigo já citado acima:
http://www.infopedia.pt/$casa-na-duna - o artigo da infopedia
http://62.28.22.201/becaic/index.php?opt
http://auladeliteraturaportuguesa.blogsp
http://www.triplov.com/poesia/carlos_de_
http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_de_O
